Autoshow 10: Que venham outras marolinhasau

21/12/2009

No final de 2008, quando, num discurso, o presidente Lula disse que a crise mundial no Brasil seria apenas uma marolinha, muita gente duvidou e comentou que ele não tinha noção do que vinha por aí. O que as pessoas não sabiam era da sua disposição em colocar toda a máquina estatal em favor de encontrar soluções que diminuíssem o impacto nas terras brasileiras. O mercado automotivo ganhou, naquele momento, seu presente de natal.

Com a redução do IPI, as projeções iniciais das montadoras de queda abrupta das vendas não se concretizaram. O que se viu foi um novo recorde, bastando dizer que 2009 será o melhor ano da história para a comercialização de automóveis. Dá até para dizer, imitando o próprio presidente, que nunca na história deste país se vendeu tanto como hoje em dia. Será batida, pela primeira vez, a marca de três milhões de veículos no mercado nacional.

cigarraformiga

Interessante notar a diferença entre o comportamento dos empresários e do povo em geral. Todos os veículos direcionados à produção, tais como caminhões, ônibus, tratores, tiveram queda em suas vendas. Os veículos de passeio, sozinhos, fizeram a mágica dos recordes. Os empresários e executivos se prepararam para o pior e adiaram a renovação de suas frotas, guardando seus dinheiros para o momento da recessão. E o povo em geral, vendo o preço dos carros cair e ficar mais convidativo, passou a consumir mais, como se não houvesse futuro. Foi como a fábula da formiga e a cigarra, só que ao contrário. Desta vez, a formiga que se prepara para o frio, viu a cigarra se dar bem, pois o tempo se manteve quente e não foi necessário parar de cantar.

Importante neste momento é perceber como o mercado automotivo se comporta em cima de percepções e não de fatos. Numa situação comum, o medo de perder o emprego no meio de uma crise levaria qualquer pessoa no mundo a adiar a troca do automóvel. No caso do Brasil, a possibilidade de se aproveitar o preço mais baixo, aliado a uma enxurrada de notícias positivas geradas pelo governo, fez com que os brasileiros saíssem a campo e comprassem seus sonhos de consumo na concessionária mais próxima.

2010 se inicia sob a perspectiva de um novo recorde de vendas e a preocupação de como se comportará o mercado sem a redução do IPI. As montadoras, a essa altura do campeonato, já tem suas projeções. Os anúncios de novos investimentos bilionários mostram que elas esperam anos de boas vendas à frente. E os soluços de mercado em 2009, nos meses de renovação do desconto do IPI, prova que, mesmo com as antecipações das compras pressionadas pelas mensagens de “Aproveite enquanto é tempo” e “Último mês”, o mercado brasileiro está maduro para garantir um volume constante e crescente de vendas.

Da minha parte, só tenho dois comentários a fazer: Que venham novas marolas, pois o resultado foi melhor do que qualquer um poderia imaginar. E que 2010 seja um ótimo ano para você, leitor. Boas festas e feliz ano novo!


Autoshow 9: De volta à época das carruagens sem cavalos

07/12/2009

Imagine-se no final do século XIX. Você resolve comprar um automóvel a gasolina, uma carruagem sem cavalos. Segundo comentam, a invenção do futuro. Sai para passear e, depois de alguns quilômetros, volta a pé porque a gasolina acabou e os postos ainda não foram inventados. Pior é chegar em casa e ouvir da esposa: “Eu te disse, besteira comprar essa máquina do diabo! Agora fica aí, tendo que arranjar um bom par de cavalos para puxar de volta aquela coisa…”

Charrete a motor

É assim que o proprietário de um carro elétrico poderá se sentir hoje em dia, possuindo um veículo que não pode ir muito longe de casa, sob o risco de ficar parado no meio do caminho. Você até pensa: “mas energia elétrica tem por toda a parte”. O problema é ter de bater campainha na casa de um desconhecido e pedir para usar a tomada dele. Ou enfrentar uma estrada, sem saber onde será o próximo local com energia disponível.

Esse tipo de dificuldade nunca segurou a raça humana. Não vai ser agora que irá segurar. Creio que temos uma queda para sermos aventureiros. É isso que leva a humanidade para frente. Aparece uma dificuldade e imediatamente vários desbravadores começam a testar soluções para ultrapassá-la. Como os combustíveis fósseis não durarão para sempre, testes e mais testes surgem para continuar a dar mobilidade aos automóveis sem depender de gasolina ou diesel.

Várias são as experiências. O carro híbrido, uma mistura de motores a gasolina e elétrico, já se tornou corriqueiro em países como os Estados Unidos e o Japão. Para se popularizar ainda mais, só falta o preço das baterias cair ao ponto do custo dos carros ser o mesmo de seus primos à combustão. O Brasil tem sido responsável pela maior e mais bem sucedida experiência de combustível renovável, com o aparecimento do motor flexível e sua capacidade de funcionar a base de álcool. Outras idéias, porém, por enquanto não se provaram eficientes, como as células de combustível a hidrogênio, que tem custos proibitivos.

Fantástico foi o pensamento de Shai Agassi, um israelense que criou a Fundação Better Place. Ao invés das pessoas recarregarem as baterias de seus carros elétricos, elas parariam em postos e as trocariam em menos de um minuto por outras já recarregadas. Que ficariam lá sendo reabastecidas para serem usadas por outros. Você compraria o carro e o direito de trocar a bateria sempre que necessário. O projeto já está sendo estudado por mais de 25 países e tem tudo para revolucionar a indústria dos veículos elétricos.

Importante lembrar que as montadoras não estão na indústria dos carros a gasolina, a diesel, ou a álcool. Elas estão na indústria da mobilidade, do transporte, do deslocamento. Elétrico, à combustão, nuclear, não importa a forma de fazer o motor funcionar. Importa lembrar que o consumidor irá comprar o modelo que aliar facilidade no reabastecimento com baixo custo. Resolvida essa equação, o mercado terá encontrado um substituto para a charrete sem cavalos atual.


Autoshow 4: Personalize seu carro e mostre quem você é

27/10/2009

Em 1914, Henry Ford disse uma frase que mostrou o quanto o mercado automotivo estava na sua infância: O cliente pode ter o carro na cor que quiser desde que seja preto. Diferentemente do que muitos pensam, suas razões eram nobres. O preto secava mais rápido, mais de acordo com as necessidades da produção em massa. Foi essa preocupação excessiva com a fabricação que lhe fez perder a liderança para a concorrente. General Motors entendeu melhor os desejos dos consumidores e passou a fazer carros vermelhos, amarelos, verdes, azuis e até pretos!

Quase cem anos depois vivemos o mundo da personalização total. Dentro dela, o tuning é a mais radical forma de expressão. Se no começo do século XX ter um carro preto era o suficiente para se destacar na multidão, muitas vezes hoje somente a cor não garante que você encontre seu carro dentro dos estacionamentos abarrotados dos shopping centers. Quem nunca confundiu seu carro numa garagem qualquer, que atire a primeira pedra.

xtreme_home

Mas qual a razão pela qual o tuning virou uma febre mundial? Por que muitas vezes alguém se predispõe a gastar mais com equipamentos do que com o próprio carro? Talvez a resposta esteja no que o automóvel represente para seus donos.

Poucos objetos são tão representativos da personalidade dos proprietários. Poucos tem o poder de transferir imagem para quem os possui. Pense um pouco: você até classifica uma pessoa pelas roupas que veste, mas ainda assim se vestir é mais democrático do que possuir um automóvel. É impossível comparar o dono de um Rolls-Royce com um de uma Ferrari. Mesmo custando milhares de dólares, a imagem transmitida por cada um dos modelos é completamente diferente.

Agora, como ficamos nós, donos de carros comuns, fabricados aos milhares? Como a gente pode se sentir diferenciado? Esse é o papel da personalização. Tornar palpável a noção de sermos únicos no universo. É como a gente se expõe aos demais, mostrando ao mundo quem somos. Desde o som, que parece deixar qualquer um surdo, mas que inclui o proprietário numa tribo específica. Ou o turbo, que permite uma arrancada mais esperta. Até mesmo a pintura rosa, clara insinuação de feminilidade a la Penélope Charmosa.

Algumas montadoras já perceberam ser essa individualização uma extensão da personalidade de quem compra um carro. A Scion, divisão jovem da Toyota nos Estados Unidos, por exemplo, possibilita a personalização na linha de montagem. Sabe que o jovem é o maior comprador do conceito, pois cresceu tunando seus carros nos jogos de videogame.

Num mundo cada vez mais competitivo, personalizar transformou-se numa fonte de renda extra para os fabricantes. Não é diferente no Brasil. Aquilo que começou discretamente, com uns poucos malucos que viravam de cabeça para baixo seus bólidos, começa a se tornar um negócio altamente lucrativo. Quem sabe daqui a pouco a gente não passe a comprar a personalização e ganhe o carro de graça? Aí sim será o ápice dessa nova tendência.


Autoshow 3: Leve-nos para cima, Agile!

20/10/2009

Fora os filmes de ficção científica, há quanto tempo você não ouve falar de discos voadores? Quem hoje em dia chega, em sã consciência, e diz que viu OVNI’s pairando acima da cabeça? Pois bem, o editor de fotografia da versão brasileira da revista inglesa Car, Luca Bassani, jura que os fotografou durante o lançamento do novo carro da Chevrolet, o Agile. Foi na pista de prova da GM, em Indaiatuba, que fica a 30 quilômetros do aeroporto de Viracopos.

AGILE COM OVNIS

Tirando a hipótese de que seja uma demonstração dos jatos franceses que o governo brasileiro pretende comprar, algumas outras idéias podem passar pela sua cabeça: Isso é uma ação de marketing da própria GM, que quer dar um ar ultratecnológico ao seu novo carro. Não, não. Foram os próprios editores da revista, que resolveram chamar a atenção para a publicação, recentemente lançada no Brasil, mas ainda não conhecida por todos os fãs de automobilismo.

Qualquer que seja a razão, uma coisa pode-se concluir: a notícia chamou a atenção dos ufologistas. Numa busca rápida no Google, podem-se encontrar centenas de blogs que reproduziram a foto e a matéria. Publicidade gratuita para o carro e para a revista.

Partindo do pressuposto que a foto é realmente de discos voadores, o que será que eles vieram fazer no Brasil, exatamente em Indaiatuba, durante a revelação do novo modelo da Chevrolet? Algumas pistas dão uma idéia do que pode ter acontecido.

O Agile é o primeiro carro que a filial brasileira lança após a concordata da sua matriz americana. Não é derivado de nenhum carro da européia Opel, como o são o Astra e o Vectra. Desenvolvido em nossas terras, é um ET no meio dos demais modelos da montadora e deve conquistar um novo tipo de consumidor, ao se lançar como um concorrente do Sandero e do Punto. Uma aposta interessante, pois abre uma nova frente de mercado, entre o Corsa e o Meriva.

Outra pista é a própria situação da montadora no Brasil. Ela mostra uma saúde financeira impressionante, ao ver os problemas da matriz à distância, muitas das vezes tendo remetido dinheiro para os Estados Unidos. Como um filho zeloso faz com pais que estejam em situação de perigo.

A recuperação da General Motors é coisa digna de filme de ficção científica. Tal qual um alienígena, as feridas se sararam numa velocidade estonteante e ela está pronta para voltar a crescer. Mas talvez, também como um ser de outro planeta, ela precise se adaptar a sua nova condição, de uma montadora que precisa rever todos os seus procedimentos, para estar novamente próxima ao consumidor.

Na série Jornada nas Estrelas, o capitão da Enterprise, James Kirk, sempre dizia para seu engenheiro, quando queria ser teletransportado dos planetas para sua nave: “Leve-nos para cima, Scott”. Talvez seja esse o lema que os discos voadores trouxeram para a Chevrolet neste momento, referindo-se à participação de mercado: “Leve-nos para cima, Agile!”


Autoshow 2: O pinto pegou a chana de frente

11/10/2009

Este é o texto da minha segunda coluna no jornal paulistano Autoshow. Aguardo comentários

 

O pinto pegou a chana de frente

Não. Você não leu errado. Nem este texto é para uma revista pornográfica. Vamos traduzir melhor o título: O Ford Pinto pegou a van Chana Family de frente. Agora ficou mais claro que estamos falando da indústria automobilística? E entendeu porque dar nomes é uma coisa tão preocupante para os executivos dessa área?

Podemos dizer que milhões de dólares são gastos anualmente pelas montadoras para achar nomes sugestivos para seus novos modelos. E mesmo assim alguns casos acabam escapando e virando motivo de piada. Famoso é o caso do modelo Chevrolet Nova, que os mexicanos chamavam de Não Vai (em espanhol, no va), brincando com a potência do motor. Apesar de algumas escorregadas, na grande maioria das vezes o resultado é muito positivo. Lógico que mais importante é o nome ser facilmente lembrado e, de preferência, curto. Isso é meio caminho para o sucesso. Coincidentemente, os cinco carros mais vendidos em setembro tem nomes sonoros e simples: Gol, Palio, Uno, Corsa e Celta. O significado original dos nomes até se perdeu. Importa que hoje geram a imagem de carros de sucesso.

Talvez o momento mais importante da decisão de um nome seja escolher entre criar um novo ou permanecer com o antigo, já tradicional. Veja o caso do Gol. A nova geração poderia ter qualquer nome, até porque existe pouca coisa em comum entre a anterior e a atual. Só que o nome é vencedor. E jogar a galinha de ovos de ouro fora é sempre complicado.

Por outro lado, o consumidor tem comportamentos diferentes quando compra de quando vende. Se você pesquisar, no momento da compra, um carro com nome novo é mais valorizado, pois é sempre melhor comprar uma novidade do que uma nova geração. Dá mais status entre os vizinhos e amigos. Porém, no momento da venda, a tradição sempre é valorizada e rende alguns reais a mais. Valoriza mais o carro não ter “saído de linha”. E o fator dinheiro é sempre importante em se tratando de automóvel.

Hoje em dia, o verdadeiro problema é encontrar um nome novo. Quase todos os bons estão ocupados ou registrados, mesmo que não estejam sendo utilizados. E aí reside a dor de cabeça dos executivos. Para encontrar um novo nome, milhares de opções são pesquisadas, uma lista de finalistas vai a consulta popular e os valores ligados a palavra são discutidos à exaustão. Encontrar um tão sugestivo quanto Agile, novo carro da Chevrolet a ser lançado, é resultado de meses de trabalho pesado, mas pode significar a diferença entre o sucesso e fracasso.

Automóvel é um dos maiores símbolos de status e personalidade, no mundo inteiro. Encontrar o nome certo, que transmita esses valores por si só, é o desafio que constrói a história de sucesso de certas marcas. Vamos continuar vendo grandes nomes sendo criados. Mas que os pintos vão continuar pegando as chanas nas esquinas do mundo, isso você pode ter certeza!